Hit the road, droid: a iminente disrupção nas estradas

Daniel Becker e Pedro Lameirão

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“Devemos nos lembrar do destino dos cavalos na Revolução Industrial. […] É altamente provável que motoristas de táxi sigam o caminho dos cavalos.”

Yuval Noah Harari

O que acontecerá quando veículos autônomos (“AVs”) estiverem por toda parte e o ato de dirigir se tornar tão retrógrado quanto andar de carroça? Das novas tecnologias viabilizadas pelo desenvolvimento da inteligência artificial, o surgimento dos AVs sem dúvidas será uma das mais promissoras e impactantes novidades para a sociedade.

A previsão do US Insurance Institute for Highway Safety é de que, até 2025, haverá cerca de 3,5 milhões de AVs em solo americano[1]. No mesmo sentido, a Intel e a Strategy Analytics publicaram, em junho desse ano, estudo conjunto prevendo que os AVs movimentarão uma economia de US$ 800 milhões até 2035 e de alguns US$ trilhões até 2050[2]. Também nesse ritmo, Elon Musk, CEO da Tesla, afirmou recentemente que espera que, no curto espaço de dez anos, a indústria automotiva passe a concentrar quase que a totalidade de sua produção em AVs[3]. Mostrando estarem atentas às previsões, atualmente todas as grandes montadoras de automóveis – além de alguns gigantes da tecnologia, como Google e Uber – já começaram a se mobilizar com pesados investimentos para explorar esse mercado que, apesar de outrora tido como futurista, está cada vez mais próximo de se tornar realidade[4].

Embora a direção de automóveis tenha sido creditada, até recentemente, como um ato exclusivamente humano, existe uma certeza cada vez maior de que essa habilidade pode ser reproduzida por computadores. Isso se deve ao fato de que, na sua essência, a direção é apenas uma combinação de competências – tais como avaliação contínua de risco, consciência sensorial e julgamento para tomar decisões – que devem ser simultaneamente coordenadas e adaptadas a circunstâncias externas variáveis. Justamente por tratar-se de uma habilidade que pode ser decomposta em competências mais simples, a produção de um sistema de condução autônoma não demanda a criação de uma AGI, mas apenas o desenvolvimento de um conjunto de ANIs[5] – ou seja, múltiplas inteligências artificiais restritas – capazes de trabalhar em cooperação.

Apesar de na teoria parecer simples, o desenvolvimento das inúmeras ANIs necessárias para a produção de AVs só se tornou possível graças aos avanços em aprendizagem automática (machine learning) obtidos mais recentemente. A técnica – que de tão importante já se tornou um subcampo da ciência da computação – basicamente capacita os computadores a aprenderem por conta própria, isto é, sem a necessidade de programação prévia e explícita[6]. Na prática, poderosos computadores são alimentados com quantidades massivas de dados[7] e os analisam de modo a organizar a informação e encontrar padrões ocultos.

Com a aprendizagem automática, tornou-se possível a criação de um sistema capaz de distinguir objetos, construir mapas tridimensionais e realizar muitas outras funções necessárias para condução de um veículo. Dados em quantidade e qualidade suficientes aliados a uma máquina “autodidata”: basta unir esses ingredientes e, voilà, o computador passou na autoescola[8]. A tarefa que antes era tida como impossível para as máquinas hoje já está sendo por elas realizada com perícia até mesmo superior à humana.[9]

Mas por que precisamos de AVs? As razões são inúmeras, trataremos aqui apenas de algumas das mais importantes. Em primeiro lugar, porque eles são mais seguros. Nos Estados Unidos, aproximadamente trinta e três mil pessoas morrem em acidentes automobilísticos todos os anos. De acordo com um estudo do Eno Center for Transportation, a implantação de AVs poderá reduzir esse número para onze mil[10]. No Brasil, o número de mortes é ainda maior e chega próximo aos quarenta mil[11]. Só a proteção à vida humana já tornaria a adoção dos AVs quase que uma obrigação moral para qualquer país que pretenda se dizer civilizado. Além disso, com a redução do número de acidentes fatais e não fatais, a diminuição de carros em circulação e a maior coordenação entre os veículos, os engarrafamentos simplesmente deixarão de existir[12]. Imagine a economia de tempo e de recursos que isso geraria para a sociedade como um todo. Mas não é só. Com um sistema de frenagem e aceleração otimizado – alimentado por uma inteligência artificial –, acredita-se que as emissões de CO2 sejam reduzidas em até 60%[13].

Se você não consegue acreditar que os AVs são uma realidade inexorável para o futuro próximo, não se sinta culpado. Devido ao viés cognitivo do raciocínio humano conhecido como heurística de disponibilidade, temos a tendência de duvidar de algo até que já tenhamos experimentado, pois nosso parâmetro para a realidade é aquilo que temos de acessível no momento[14]. Para elidir esse viés, apresentamos abaixo um gráfico que demonstra a velocidade crescente – e avassaladora – da taxa de adoção das tecnologias:

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Veja quanto tempo o telefone demorou para se tornar mainstream. Agora, olhe para a curva do tablet. A despeito dos aspectos intrínsecos que separam as duas tecnologias, o gráfico é assustadoramente real. Considerando que os primeiros protótipos de carros autônomos foram criados pela Mercedes-Benz há mais de 20 anos[15], não há dúvidas que estamos próximos do ponto de explosão da função exponencial (knee of the curve) dos AVs.[16]

A iminente disrupção nas estradas promete não só mudar radicalmente a economia, mas também alguns hábitos e problemas que hoje em dia fazem parte da rotina do cidadão comum, tais como ter um automóvel particular e desperdiçar horas e horas diárias nos infindáveis engarrafamentos típicos dos grandes centros urbanos. Todas essas mudanças trarão inúmeros desafios regulatórios relacionados a infraestrutura, operação e utilização das vias públicas, cuja solução passará pela reformulação das normas capazes de garantir segurança nas estradas. A uma, porque o Código de Trânsito Brasileiro (Lei Federal nº 9.503/97), bem como as normas infralegais dos entes reguladores de trânsito deverão ser todos reformulados, uma vez que a figura do condutor simplesmente deixará de existir. A duas, porque um AV sem controle de qualidade, com defeito ou hackeado, de uma hora para outra, pode passar de um ferro velho para uma potente arma terrorista. De olho nisso, países como Alemanha, Austrália, Coréia do Sul, Singapura e Estados Unidos[17] já adotaram iniciativas para criar um arcabouço regulatório – ao menos preliminar – a fim de controlar a introdução dos AVs na sociedade[18].

Outro sensível aspecto dos AVs é relativo à responsabilidade civil e criminal pelos acidentes por eles causados. Atualmente, os automóveis já detêm  diversas funções automatizadas, tais como controle de tração, limitadores de distância e câmbio automático; contudo, o ser humano ainda permanece como o condutor e responsável pelos danos que o veículo causar[19]. Com a disseminação gradual dos AVs, as decisões no trânsito passarão a ser tomadas unicamente pela máquina artificialmente inteligente. Para melhor ilustrar essa ideia por meio de uma situação extrema: o AV terá que decidir, por exemplo, se atropela uma pessoa ou se colide contra um muro e mata seus passageiros. Mais do que isso, ao que tudo indica, essa escolha deverá ser realizada previamente pelos programadores dos AVs, o que torna o dilema moral ainda mais dramático[20].

Apesar de no geral ser um fenômeno positivo, a automatização do trânsito traz consigo certas questões que demandam nossa atenção com cada vez mais urgência e que ainda não foram devidamente respondidas. É chegado o momento que exige que nos preparemos para apresentar soluções firmes para os problemas decorrentes dos significativos impactos causados pelos AVs no mercado automotivo, nos serviços de transporte e na mobilidade urbana.

[1] LUND, Adrian. Advancing vehicle safety at the Insurance Institute for Highway Safety in 2016 (and beyond). US Insurance Institute for Highway Safety. Disponível em: www.iihs.org/media/…821b…/Lund_crashtech_Apr2016.pdf – Acesso em 14 de jul. 2017.

[2] LANCTOT, Roger. Accelerating the Future: The Economic Impact of the Emerging Passenger Economy. Intel. Disponível em: https://newsroom.intel.com/newsroom/wp-content/uploads/sites/11/2017/05/passenger-economy.pdf – Acesso em 14 de jul. 2017.

[3] LAMBERT, Fred. Tesla CEO Elon Musk says ‘almost all new cars will be self-driving within 10 years’. Electrek. Disponível em: https://electrek.co/2017/02/13/tesla-elon-musk-all-new-cars-self-driving/ –  Acesso em 14 de jul. 2017.

[4] GOODWIN, Antuan. Rise of the robocar: How future car tech saves lives today. RoadShow by CNET. Disponível em: https://www.cnet.com/roadshow/news/rise-of-the-robocar-how-future-car-tech-saves-lives-today/ – Acesso em 14 de jul. 2017.

[5] Sobre Artificial Narrow Intelligence (ANI) e Artificial General Intelligence (AGI), ver BECKER, Daniel; LAMEIRÃO, Pedro. Hasta la vista, counselor: os advogados não serão substituídos pela tecnologia? Direito da Inteligência Artificial. Disponível em: https://direitodainteligenciaartificial.com/2017/07/12/hasta-la-vista-counselor-os-advogados-nao-serao-substituidos-pela-tecnologia/ – Acesso em: 10 de jul. 2017.

[6] MEDINA, Andrés Muñoz. Machine Learning and Optimization. Courant Institute of Mathematical Sciences – New York University. Disponível em: https://www.cims.nyu.edu/~munoz/files/ml_optimization.pdf – Acesso em: 10 de jul. 2017.

[7] BRANDON, John. The information age is over, welcome to the machine learning age. VentureBeat. Disponível em: https://venturebeat.com/2017/06/25/the-information-age-is-over-welcome-to-the-machine-learning-age/ – Acesso em: 10 de jul. 2017.

[8] HYATT, Nabeel. Autonomous driving is here, and it’s going to change everything. Recode. Disponível em: https://www.recode.net/2017/4/19/15364608/autonomous-self-driving-cars-impact-disruption-society-mobility – Acesso em: 15 de jul. 2017.

[9]WADHWA, Vivek. Self-driving cars should leave us all unsettled. Here’s why. The Washington Post. Disponível em: https://www.washingtonpost.com/news/innovations/wp/2017/04/24/self-driving-cars-should-leave-us-all-unsettled-heres-why/?utm_term=.19345a4ef618 –  Acesso em 14 de jul. 2017.

[10] Eno Center for Transportation. Preparing a Nation for Autonomous Vehicles: Opportunities, Barriers and Policy Recommendations. Eno Center for Transportation. Disponível em: https://www.enotrans.org/wp-content/uploads/AV-paper.pdf – Acesso em 15 de jul.

[11] Associação Brasileira de Prevenção dos Acidentes de Trânsito. Estatísticas nacionais de acidentes de trânsito. Vias Seguras. Disponível em: http://www.vias-seguras.com/os_acidentes/estatisticas/estatisticas_nacionais – Acesso em 18 de jul. de 2017.

[12] THOPMSON, Cadie. The 3 biggest ways self-driving cars will improve our lives. Business Insider. Disponível em: http://www.businessinsider.com/advantages-of-driverless-cars-2016-6/#you-will-have-more-free-time-3 – Acesso em 15 de jul. 2017.

[13] BERTONCELLO, Michele; WEE, Dominik. Ten ways autonomous driving could redefine the automotive world. McKinsey. Disponível em: http://www.mckinsey.com/industries/automotive-and-assembly/our-insights/ten-ways-autonomous-driving-could-redefine-the-automotive-world – Acesso em 15 de jul. 2017.

[14] YUDKOWSK, ELIEZER. Cognitive biases potentially affecting judgment of global risks. Machine Intelligence Research Institute. Disponível em: https://intelligence.org/files/CognitiveBiases.pdf – Acesso em 15 de jul. 2017.

[15] ROSTCHECK, David. Singularity Weblog. Exponential Technology and the Self-Driving Car‏. Disponível em: https://www.singularityweblog.com/exponential-technology-self-driving-car%E2%80%8F/ – Acesso em 15 de jul. 2017.

[16] Breves comentários a respeito do poder das mudanças exponenciais em BECKER, Daniel; LAMEIRÃO, Pedro. Hasta la vista, counselor: os advogados não serão substituídos pela tecnologia? Direito da Inteligência Artificial. Disponível em: https://direitodainteligenciaartificial.com/2017/07/12/hasta-la-vista-counselor-os-advogados-nao-serao-substituidos-pela-tecnologia/ – Acesso em: 10 de jul. 2017.

[17] NCSL. Self-Driving Vehicles Enacted Legislation. National Conference of State Legislatures. Disponível em:  http://www.ncsl.org/research/transportation/autonomous-vehicles-self-driving-vehicles-enacted-legislation.aspx – Acesso em 10 de jul. 2017.

[18] MASCHMEDT, Alex; YUN, LOUISE. The regulatory road for driverless cars in Australia. King & Wood Mallesons. Disponível em: http://www.kwm.com/en/au/knowledge/insights/national-transport-commission-paper-driverless-cars-autonomous-vehicles-20170713 – Acesso em 10 de jul. 2017.

[19] MAIA, William. Carros autônomos pedem update na legislação. Instituto dos Advogados de São Paulo. Disponível em: http://www.iasp.org.br/2015/03/carros-autonomos-pedem-update-na-legislacao/ – Acesso em 10 de jul. 2017.

[20] NBC. For Driverless Cars, a Moral Dilemma: Who Lives and Who Dies? NBC News. Disponível em: http://www.nbcnews.com/tech/innovation/driverless-cars-moral-dilemma-who-lives-who-dies-n708276 – Acesso em: 18 de jul. 2017.

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